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Recordações de um Dia dos Pais.

Não há. Não existem recordações sobre essa data. Eu me esforço para tentar lembrá-la em algum momento da minha vida que você esteve por perto, mas não consigo. Ah, lembro da sua gargalhada, das suas palhaçadas, e por incrível que pareça, de quando me carregava sobre seus ombros, e eu me achava gigante.  Você me deu todas as Barbies que eu quis ter, e ainda me deu uma bicicleta da Barbie, que tinha os pneus brancos, você lembra?

Eu recordarei os dias onde você era um herói em meus olhos
Mas aquilo era apenas uma memória perdida
Eu gastei muitos anos aprendendo como sobreviver

Quer saber do que mais eu lembro?

Houve um dia que você não foi me buscar na escola, e todos já haviam ido embora. Eu estava sozinha, não entendia o que se passava, não compreendia a verdadeira realidade da minha família àquele tempo. Não havia celular, não tinha como ligar para ninguém, e lembro-me muito bem do pavor que senti. Até que meu irmão e um amigo aparecem de bicicleta para me buscar (naquela época, meu irmão tinha uma BMX e subi no suporte que havia entre a roda traseira, enquanto o seu amigo carregava minha mochila cor de rosa). Foram tantas as vezes que me esquecia na escola, no ateliê, na ginástica…

Também lembro das vezes que chegava em casa com bolos de notas de dinheiro, e eu sequer imaginava daonde vinha aquele dinheiro. Só pensava que teria mais Barbies  e brinquedos.

Numa consulta com a pediatra, ouvi-a dizer à mãe que se eu tivesse o sonho de ser cantora ou atriz, deveria optar por outra carreira, devido ao estrago que havia causado nas cordas vocais. Hoje isso faz sentido, depois de perder constantemente a voz repentinamente sem aparente motivo. Aprendi a conviver com isso, e tive que optar por outra profissão. Foram noites seguidas (diga-se anos) em que você saía à noite dizendo que estava indo buscar um filme na vídeolocadora e não voltava; outras vezes dava a desculpa que só ia fumar lá fora. Eu não conseguia entender porque sumia tantos dias. E quando retornava sempre trazia um presente, era assim que nos comprava, pra tentar amenizar a falta e tentar fazer com que esquecêssemos. Foram noites seguidas que me agarrava às tuas pernas e implorava para que não fosse buscar filme, eu berrava que não queria assistir, eu só não queria que fosse embora! Em meio a tantos choros e gritos…a minha voz se foi.

Eu lembro também das promessas que fazia, e nunca as cumpria.
Era 21 de Agosto 1998 quando te dei meu último abraço no aeroporto e te vi chorar pela primeira vez. Suas últimas palavras foram: “Paizinho vai pro Natal”, e aquilo me deu esperanças. A maneira que despediu-se da mãe e do meu irmão ficaram marcadas na minha memória, porque senti algo diferente, algo como se eles soubessem de qualquer coisa que eu não sabia (de fato sabiam). Mas nunca pensei a respeito. O Natal havia chegado, mas você não. Dava qualquer desculpa e eu acreditava. Prometeu que viria umas tantas vezes que perdi a conta.

Com certeza não me esquecerei da última vez que acreditei.
Dia 26 Abril de 1999 era o suposto dia que havia prometido que chegaria. Nesse dia eu não fui para a escola. Arrumei-me e sentei no sofá da sala aguardando ansiosamente por sua chegada. A mãe e a vó me diziam: “Filha, ele não vai vir, vá brincar.” Eu sorria e super empolgada dizia a elas: ” Vai sim, vocês vão ver. Ele falou no telefone pra mim que chegava hoje. Vocês vão ver, esperem.” Aviões passavam por aqui e eu ficava imaginando qual deles seria o seu. Anoiteceu, e eu não queria dormir porque queria estar acordada quando você chegasse. O dia foi terminando e o desespero tomando conta de mim, na minha cabeça o avião poderia ter atrasado…E com febre, dormi. Sonhei, delirei, e até consegui vê-lo entrar em casa. Fiquei doente por uma semana.

Depois disto, custou-me a acreditar no que dizia. Custa-me ainda hoje.

Por muitas vezes perguntei-me a mim mesma:

Você pensa nos seus filhos?
Você sente falta da sua garotinha?
Quando você deita sua cabeça, como você dorme à noite?
Você ao menos se pergunta se nós estamos bem?
Tem sido uma longa e dura estrada sem você do meu lado
Por que não estava você lá todas as noites que nós choramos?
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Autor:

Escrever é enfiar o dedo na garganta.

Uma opinião sobre “Recordações de um Dia dos Pais.

  1. Acho q finalmente vc esta conseguindo por pra fora, todos esses anos guardando esse sentimento q aprisiona e sufoca a alma. Mas veja pelo lado bom, vc amadureceu e aprendeu e esta aprendendo a nao ter expectativas demais com alguem q nao valoriza o peso q significa a palavra FAMILIA e FILHOS. Amo vc em dobro.

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